segunda-feira, 30 de julho de 2012

Conversa Com Adélia



Cover / Dona Doida 
(Adélia Prado)

A mente humana lembra do que não quer, nem se planeja.

São flashes em velocidade luz.

Lembranças... Eis, que em mim estão!

De um passado bem passado
... quando criança, nos meus primeiros anos.

Não lembro da chuva, tal qual, chove agora,
nem dos seus pingos, n’uma  poça d’água... Adélia.

Lembro de um caderno, página arrancada,
para ‘dar vida’ a um barquinho,

que vi correr após a chuva, rente ao meio-fio da calçada...

De minha mãe... com certeza lembro!
E, convicta falo: chuchu novinho, angu,

molho de ovos, rosas, amores,
flores, cravos...não lhe inspiraram.

Quem sabe nisso também temos afins?

Fugas, reencontros, desencontros...
E, uma loucura... Onde os loucos de pedra
são os que se julgam sãos.

Lembro da lua... eu, correndo de cara prá cima
n’uma vã tentativa de fugir dela.

Coisa de doida... Adélia!

Dona Doida

Por Adélia Prado

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,

com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

O texto acima foi extraído do livro "Poesia Reunida",
Editora Siciliano - 1991, São Paulo, página 108.
Adélia Prado


EstherRogessi,Conversa Com Adélia (Inspirado no poema ‘Dona Doida’ de Amélia Prado).29/01/10.

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